sábado, 7 de novembro de 2009

DÍZIMO

Dai a Cézar o que é de Cézar, e a Deus o que é de Deus. Mt 22.20

Uma questão tanto polêmica, controvertida como também mal ensinada em nossas igrejas.

Bem! Antes de qualquer coisa, Igreja não são os prédios, as denominações suas escolas e faculdades Metodidtas, Batistas, Presbiterianas, Católicas , a secretaria das faculdades, da igreja, assim também, Igreja não são os pastores, os presbíteros, o ministério de oração, o grupo da fofoca, ou qualquer organização eclesiástica.

Igreja somos nós, são todos aqueles que confessam sua fé em Jesus Cristo e estão em comunhão.

Ser Igreja não é ser membro de uma instituição religiosa e ter seu nome anotado em um livro com um numero.

Muitos falam que quem não dizima não pode ser membro da Igreja!

Mentiroso quem diz isto.

Pode ser que não poderá ser afiliado, ou sócio de uma instituição religiosa, mas como expliquei, ser Igreja vai muito além de sentar nos bancos dos Prédios e ficar olhando nas nucas das pessoas e ser um mero ouvinte.

Existem denominações ensina que quem não dizima está em pecado e que não pode pregar, ensinar, evangelizar, adorar e ser chamado de irmão.

Muitos criam o subterfúgio de construções, compras de faculdades e cada vez mais assume compromissos e sugam do povo cada vez mais, e já não existem pessoas e sim massa humana, existe quantas cabeças tem determinada denominação . Os cultos que deveriam ser direcionados ao Senhor, transformam em reuniões de negócios ou de troca.

Sem espiritualizar muito vou te explicar sobre o dizimo passo a passo seguindo valores históricos, pois cada denominação aumenta um ponto para registrar a questão do dizimo.

CONCEITO E DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO TEOLÓGICO.

.Dízimo significa a décima parte de algo, entregue voluntariamente ou através de taxa ou imposto, dependendo da normatização de cada situação e época, normalmente para ajudar organizações religiosas judaicas ou cristãs. Apesar de atualmente estarem associados à religião, muitos reis na Antigüidade exigiam o dízimo de seus povos, historicamente eram pagos na forma de bens, como com produtos agrícolas. Alguns países europeus permitem com força de lei que instituições religiosas instituam o dízimo como obrigatório. O Dízimo na cultura Abraâmicas foi instituído na Lei de Moisés, estipulado para manter os sacerdotes e a tribo de Levi, que mantinha o Tabernáculo e depois o Templo, já que eles não poderiam possuir herdades e territórios como as outras tribos. Também o dinheiro era usado para assistir os órfãos, viúvas e os pobres. Depois da destruição do Templo no ano 70 DC a classe sacerdotal e os sacrifícios foram desmantelados, assim os rabinos passaram a recomendar que os judeus contribuíssem em obras caritativas. Malaquias 3:10.

A primeira menção de dízimo na Bíblia está registrado no livro Gênesis, capítulo 14, referindo-se à uma atitude voluntariosa de Abraão, ora Abrão, quando depois de uma guerra, ele "deu o dízimo de tudo" ( 10%) a um sacerdote de quem pouco se sabe, chamado Melquisedeque. Um segundo relato, ainda pré Mosaico, é registrado sob a forma de promessa voluntária. Após uma noite em que teve um sonho que julgou revelador, Jacó, neto de Abraão, também se comprometeu voluntariamente a dar dízimos - "oferecerei o dízimo de tudo que me deres" - caso Deus o guardasse e protegesse. Posteriormente, a lei Mosaica prevê um imposto de 10 por cento (dízimas) dos animais e colheitas recolhidos uma vez ao ano, registrado em Levítico 27. Há também um aspecto mais abrangente desse imposto, relatado em Deuteronômios 14, onde se percebem alguns aspectos que não foram explicitados em Levítico, como: razão de culto, interação familiar e auxílio a classe sacerdotal. Também está registrado no contexto, que a cada três anos, esses dízimos deveriam ser instrumentos de auxílio social, notadamente para os levitas (sacerdotes), estrangeiros, órfãos e viúvas. Os próprios sacerdotes, devido a um afroxamento no rigor de cumprir a Lei e desvios na conduta dos homens que cuidavam do serviço sacerdotal, foram avisados e amaldiçoados por Deus, no ministério do profeta Malaquias. E foram advertidos que se não mudassem de comportamento em relação às ofertas e ao dízimo, Deus tornaria as suas bênçãos em maldição Malaquias 2 e mandaria o anjo do Senhor para preparar os Seus caminhos. Desde a Reforma as igrejas protestantes históricas creêm que sob a Graça o dízimo não é válido visto que o Sacrifício de Cristo cumpriu a Torá, houve o fim do templo, e a crença no sacerdócio universal( todos nós somos sacerdotes) anulava a existência de uma casta sacerdotal. As igrejas protestantes históricas (reformadas, luteranas, anabatistas) utilizam-se várias formas para a manutenção dos pédios e dos serviços eclesiais como subscrições, ofertas voluntária e em alguns casos fundos estatais. Mas mesmo assim a prática do dízimo é empregada hoje por várias denominações pentecostais ou neo-pentecostais, principalmente na América Latina.

PAPEL DE SER IGREJA

Como as igrejas ( Grupos de pessoas ) do Novo Testamento recebiam dinheiro?

Normalmente, das contribuições dos cristãos. As igrejas, geralmente, recebiam seu dinheiro de contribuições voluntárias dos membros. "Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for" (1 Coríntios 16:1-2). "Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade" (Atos 4:34-35). Paulo ensinava que os cristãos deveriam dar voluntariamente e com alegria: "Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria" (2 Coríntios 9:7). Em casos excepcionais, de outras igrejas. Em casos de necessidade, tais como aquela causada por severa fome na Judéia, as igrejas pobres receberam assistência financeira das mais prósperas congregações de outros lugares (Atos 11:27-30). É por isto que Paulo enviou instruções à igreja Coríntia (também mencionadas em Romanos 15:25-32) sobre as doações para ajudar os irmãos pobres de Jerusalém (1 Coríntios 16:1-4; 2 Coríntios 8).

Para ensinar o evangelho. Desde que a missão principal da igreja é espiritual (1 Timóteo 3:15), não é surpresa que as igrejas do Novo Testamento usassem seu dinheiro para espalhar o evangelho. Exemplos deste emprego dos fundos arrecadados incluem o sustento financeiro de homens e mulheres que pregavam o evangelho (1 Coríntios 9:1-15; 2 Coríntios 11:8; Filipenses 4:10-18), e aos que serviam como presbíteros (1 Timóteo 5:17-18). Para acudir os santos necessitados. Quando os cristãos pobres necessitavam de assistência, o dinheiro dado à congregação era usado para acudir àquelas necessidades (Atos 4:32-37; 6:1-4).

Desde que a Bíblia registra tudo o que precisamos saber para servir a Deus de modo aceitável (2 Pedro 1:3; Judas 3; 2 Timóteo 3:16-17), aqueles que hoje procuram servir ao Senhor praticarão somente o que é autorizado no Novo Testamento. Deus não nos deu permissão para tentar melhorar seu plano. O modelo do Novo Testamento pode parecer muito simples, e não sofisticados, às pessoas que estão rodeadas por imensos empreendimentos multinacionais, mas os fiéis precisam contentar-se em fazer a obra de Deus à maneira de Deus. Nossa missão não é juntar grande riqueza ou construir enormes organizações. Nossa missão é servir Jesus e mostrar a outros como fazer o mesmo. Os verdadeiros cristãos não estão interessados em competir com o mundo, mas simplesmente procuram agradar a Deus. As igrejas que seguem o modelo do Novo Testamento receberão seu dinheiro de contribuições voluntárias dos cristãos. Nos casos em que há mais irmãos pobres do que a congregação é capaz de ajudar, elas podem também receber assistência de outras congregações. Este dinheiro será então dedicado à obra que Deus autorizou. A principal missão da igreja (irmãos) sempre será espiritual, alcançando os perdidos e edificando os salvos. Os recursos financeiros da igreja serão usados para completar sua missão de proclamar a pura mensagem do evangelho. Quando há casos de necessidade entre os discípulos, a igreja pode usar suas economias para dar assistência. Quando as igrejas mais prósperas sabem de tais necessidades nas congregações mais pobres, elas podem fazer como as igrejas da Galácia, Macedônia e Acaia fizeram e enviar dinheiro para ajudar seus irmãos mais pobres (veja 1 Coríntios 16:1; 2 Coríntios 8:1-4; 9:1-2).

DIZIMO COMO EXIGÊNCIA

Exigir dízimo. Muitas igrejas pregam que o dízimo é necessário hoje, e sugerem que aqueles que não dão 10% não serão abençoados por Deus. Eles deixam de fazer a distinção que Jesus e os apóstolos fizeram entre o Velho e o Novo Testamento. O dízimo era parte da Lei de Moisés, dada por Deus aos israelitas. Era também o imposto de Israel, com este imposto, o dizimo, também servia para socorrer o agricultor quando sua safra se perdia devido às grandes secas que ocorriam nesta região, e também era usada para manter os exércitos, semelhante que hoje fazemos quando declaramos o imposto de renda e pagamos ICMS.

Passagens tais como Malaquias 3:10, que é usada freqüentemente para exigir o dízimo atualmente, foram escritas para os judeus alguns séculos antes que Cristo morresse para completar essa lei. Não estamos sob essa lei (Gálatas 3:23-25; 5:1-4; Romanos 7:6). Não há uma única passagem no Novo Testamento que autorize as igrejas a exigir dízimo e não existe nada que mande disciplinar as pessoas, tirar dos ministérios por que não tem dizimado, Igrejas proprietárias de negócios. Longe da ênfase espiritual da igreja primitiva, algumas igrejas possuem e operam tudo, desde redes comerciais de televisão até lojas de roupas. O dinheiro contribuído pelos membros é investido em negócios, e os lucros então são usados para sustentar os demais programas da igreja e compras de universidades e diversas escolas. Este pode ser um modo eficaz de aumentar as rendas, mas não é bíblico. A mudança de foco em coisas espirituais para coisas políticas e sociais. É claro que cada seguidor individual de Cristo tem responsabilidade de praticar a justiça e ajudar aqueles que estão em necessidade (Efésios 4:28; Tiago 1:27). Além disto, a igreja tem responsabilidade de ajudar cristãos necessitados (2 Coríntios 8:1-4; etc). As igrejas do Novo Testamento não eram instituições sociais que tentavam sustentar todo o mundo, nem era seu trabalho ganhar poder político ou providenciar divertimento ou escolas. As igrejas do Novo Testamento se dedicavam claramente a uma missão bem mais importante: a salvação e preservação das almas eternas. Continuemos nesta dedicação! Substituindo o plano de Deus pelas organizações e planos humanos. O plano da Bíblia é simples. A igreja local era suficiente para cumprir a obra que Deus lhe deu para fazer. Nada encontramos no Novo Testamento sobre sociedades missionárias, instituições educacionais ou sociais sustentadas pela igreja, etc. Não encontramos igrejas planejando grandes obras e depois pedindo fundos de outras congregações para completar seus planos. Cada igreja local era suficiente para cumprir sua missão dada por Deus.

FAZENDO A OBRA DE DEUS À MANEIRA DE DEUS

Quando buscamos servir o Senhor nas igrejas locais, vamos nos contentar em fazer a obra de Deus como ele instruiu. Cada esforço para “melhorar” o plano de Deus mostra uma falta de fé nele e na absoluta suficiência de sua palavra. Vamos confiar nele e vamos amá-lo bastante para obedecê-lo (João 14:15).

PONTO DE VISTA JURÍDICO.

No Brasil vale lembrar que os templos religiosos e todos os patrimônios de sua pessoa Jurídica são isentas e imunes de impostos. É vedado às pessoas políticas instituírem impostos sobre templos de qualquer culto no que se refereao patrimônio, renda e serviços, vinculados a suas finalidades essenciais(art. 150, VI, “b” e §4º da CF) .Uma conquista constitucional oferecida ás igrejas, uma expressão da liberdade religiosa. Elas são isentas, tem finalidade filantrópicas, ou seja, sem fins econômicos. Código Civil art. 53.

Imunidade subjetiva: Refere-se à entidade e não a um determinado bem.
Templos de qualquer culto é uma expressão ampla que abrange não só as Igrejas, como também as Lojas maçônicas, Casa do Pastor, Convento, Centro de Formação de Rabinos, Seminários, Casa Paroquial, Imóveis que facilitam o culto, veículos utilizados para atividades pastorais, como o templo móvel e etc. Assim os anexos dos templos também são abrangidos.
Como os Templos presumem-se não imorais, cabe à Pessoa Política provar que o são para que possa fazer incidir os impostos.

Patrimônio, renda e serviços relacionados com as finalidades essenciais do templo: Tendo em vista que a imunidade tem limites, não alcança atividades desvinculadas do culto (art. 150, §4º da CF). Ex: Estacionamento da Igreja pode ser tributado por ISS, IPTU, IR, etc. – Entretanto, o que é comercializado dentro do templo esta a salvo da tributação, pois faz parte do culto.

Uma decisão TJ de Mato Grosso do Sul nega recurso para isenção de IPTU a imóveis de igreja. Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) negou recurso de uma igreja evangélica de Campo Grande que tentava estender a isenção de IPTU - concedida apenas a templos de qualquer culto - para os outros imóveis da entidade religiosa. A Justiça, em primeira instância, já havia negado o mandado de segurança contra a prefeitura.

A decisão foi da 4ª Turma Cível em sessão na terça-feira (1º). No presente recurso, a igreja alegou que possui imunidade tributária nos termos do art. 150, § 4º, da Constituição Federal e que estabelece que é vedada a tributação por meio de IPTU de templos de qualquer culto e que este direito se estenderia aos demais imóveis da entidade religiosa.

Em seu voto, o relator do processo, desembargador Atapoã da Costa Feliz, observou que "a Constituição da República restringe a concessão da imunidade ao patrimônio, à renda e aos serviços relacionados com a finalidade essencial das entidades, ou seja, para que os imóveis da recorrente sejam imunes ao IPTU é preciso que sejam utilizados para consecução religiosa". Conforme salientou o relator, não basta apenas o imóvel ser de propriedade da igreja e sim que esteja servindo para o exercício da fé. O recurso foi improvido por unanimidade pela 4ª Turma Cível, pois não ficou comprovado que os bens são utilizados para esses fins, ou ainda, que o ganho é revertido para a igreja, pois, "não basta provar a sua propriedade, faz-se necessário que tal patrimônio esteja servindo ao cumprimento da finalidade essencial da instituição", acrescentou em seu voto o relator, que citou jurisprudência do próprio TJMS, como também do TJMG, de apelações semelhantes que também pretendiam a mesma isenção com base no referido artigo da Constituição. Como visto acima o direito pátrio além dar a liberdade religiosa, também protege dos eventuais desvios de sua natureza. É sabido que as igrejas têm proteção constitucional no que se refere à liturgia, forma dos cultos, meios e locais para se expressar, etc. No art. 5, inc. VI, da Constituição Federal, lê-se o seguinte: “É inviolável a liberdade de consciência e de crença,sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida na forma da lei a proteção aos locais de culto e suas liturgia. Art. 19: É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: s.” “Inc. I: estabelecer cultos religiosos ou igrejas; subvencioná-los; embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.”

Estabelece a Constituição Federal, em seu art. 150 caput, inc. II, inc. VI, alínea b e parágrafo 4, o seguinte: “Art. 150: Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

“Inc. II: instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente, proibida qualquer distinção em razão de ocupação profissional ou função por eles exercida, independentemente da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direitos;

“Inc. VI: instituir impostos sobre:

“alínea b: templos de qualquer culto

“Parágrafo 4: As vedações expressas no inciso VI, alíneas b e c, compreendem somente o patrimônio, a renda e os serviços, relacionados com as finalidades essenciais das entidades nela mencionadas.”

O texto constitucional é bem claro no que diz respeito à isenção tributária e à imunidade. Primeiramente, o texto estabelece que não deve existir um contribuinte em igualdade com outro e receber tratamento diferenciado. Determinada igreja recebe a imunidade tributária, mas faz uso comercial da arrecadação do dinheiro dos membros investindo em bens móveis, imóveis, adquire canal de TV e comercializa sua programação completamente fora do seu propósito religioso. Estamos diante de uma ilegalidade constitucional. É claro o texto também quando diz onde deve recair a imunidade dos tributos. Estabelece a lei que será vedada a cobrança somente no patrimônio, na renda e nos serviços relacionados com as finalidades essenciais da igreja. Portanto, não pode a igreja desvirtuar tal benefício em prol de coisas que não estejam estritamente ligadas ao objetivo e propósito de sua existência: o de levar a fé e o conforto espiritual dentro do seu templo. A igreja não está impedida de usar nenhum meio de comunicação, desde que seu uso seja estritamente espiritual e de acordo com a sua filosofia e seu propósito como igreja. Cito ainda o Dr. Scorsim, que diz em outro parágrafo: “A meu ver, a lei não proíbe que as igrejas acessem a atividade de televisão. É proibido, isto sim, que as organizações religiosas sejam proprietárias de emissoras de televisão. Reprise-se que não é admissível que elas possuam emissoras comerciais, isto é, com finalidades lucrativas. A igreja não é um negócio, nem um instrumento para o enriquecimento privado. Também, não pode servir como plataforma eleitoral para candidatos a cargos públicos. Se uma determinada organização com fins religiosos mantiver uma televisão comercial haverá desvio de finalidade” (texto extraído do Jus Navigandi). Infelizmente, algumas denominações se afastam do critério bíblico inflacionando o dízimo e recaem muitas vezes na prática do crime de estelionato, conforme está disposto em nosso Código Penal. Diz o texto penal em seu art. 171: “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento:

“Pena – reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos e multa.”

Muitas pessoas se deixam levar pela promessa de recursos abundantes mediante a doação de bens móveis, imóveis e dinheiro, querendo dessa forma que Deus triplique suas posses materiais. Não há embasamento bíblico para isso, e se pessoas são instadas a fazer isso mediante apelo psicológico, técnicas de oratória e irresistível emoção, pode-se estar diante do crime de estelionato.

Estas garantias se dão em razão do ser humano, da pessoa natural. Se o próprio estado dá todas estas garantias, por que muitos líderes insistem em afastar membros no subterfúgio de que elas não dizimam? Todo trabalho de um Cristão, as ofertas, visitações, amparo aos doentes, enfermos, ofertas de cestas básicas, construção voluntária, mutirão, discipulado, o tempo para as atividades do culto público são dízimos.

Referências

BÍBLIA. Português. A Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2004. Revista e atualizada no Brasil, 2. ed.

JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. Rio de Janeiro: ed. CPAD, 1990.

GARCIA, Gilberto. O novo código civil e as igrejas. São Paulo: Editora Vida, 2003

HALLEY, Henry H. Manual Bíblico. São Paulo: Vida Nova, 1993.

RIBEIRO, Milton. Liberdade religiosa: uma proposta para debate. São Paulo: Editora Mackenzie, 2002.

TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. 3. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2006.

REALE, Miguel. O código civil e as igrejas. Jornal O Estado de São Paulo. 05/07/03 – p. A2

http://www.direitonosso.com.br/artigo6.htm acessado em 30 de setembro de 2009

http://pt.wikipedia.org/wiki/Dízimo acessado em 30 de setembro de 2009

http://www.boasnovas.tv/programas/antenados/index.php?option=com_content&task=view&id=157&Itemid=26. acessado em 30 de setembro de 2009

Oséias de Lima Vieira.

domingo, 1 de novembro de 2009

DÍZIMO

Dai a Cézar o que é de Cézar, e a Deus o que é de Deus. Mt 22.20

Uma questão tanto polêmica, controvertida como também mal ensinada em nossas igrejas.

Bem! Antes de qualquer coisa, Igreja não são os prédios, as denominações suas escolas e faculdades a secretaria assim também, Igreja não são os pastores, os presbíteros, o ministério de oração ou qualquer organização eclesiástica.

Igreja somos nós, são todos aqueles que confessam sua fé em Jesus Cristo e estão em comunhão.

Ser Igreja não é ser membro de uma instituição religiosa e ter seu nome anotado em um livro com um numero.

Muitos falam que quem não dizima não pode ser membro da Igreja!

Mentiroso quem diz isto.

Pode ser que não poderá ser afiliado, ou sócio de uma instituição religiosa, mas como expliquei, ser Igreja vai muito além de sentar nos bancos dos Prédios e ficar olhando nas nucas das pessoas e ser um mero ouvinte.

Existem denominações ensina que quem não dizima está em pecado e que não pode pregar, ensinar, evangelizar, adorar e ser chamado de irmão.

Muitos criam o subterfúgio de construções, compras de faculdades e cada vez mais assume compromissos e sugam do povo cada vez mais, e já não existem pessoas e sim massa humana, existe quantas cabeças tem determinada denominação . Os cultos que deveriam ser direcionados ao Senhor, transformam em reuniões de negócios ou de troca.

Sem espiritualizar muito vou te explicar sobre o dizimo passo a passo seguindo valores históricos, pois cada denominação aumenta um ponto para registrar a questão do dizimo.

CONCEITO E DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO TEOLÓGICO.

.Dízimo significa a décima parte de algo, entregue voluntariamente ou através de taxa ou imposto, dependendo da normatização de cada situação e época, normalmente para ajudar organizações religiosas judaicas ou cristãs. Apesar de atualmente estarem associados à religião, muitos reis na Antigüidade exigiam o dízimo de seus povos, historicamente eram pagos na forma de bens, como com produtos agrícolas. Alguns países europeus permitem com força de lei que instituições religiosas instituam o dízimo como obrigatório. O Dízimo na cultura Abraâmicas foi instituído na Lei de Moisés, estipulado para manter os sacerdotes e a tribo de Levi, que mantinha o Tabernáculo e depois o Templo, já que eles não poderiam possuir herdades e territórios como as outras tribos. Também o dinheiro era usado paraassistir os órfãos, viúvas e os pobres. Depois da destruição do Templo no ano 70 DC a classe sacerdotal e os sacrifícios foram desmantelados, assim os rabinos passaram a recomendar que os judeus contribuíssem em obras caritativas. Malaquias 3:10.

A primeira menção de dízimo na Bíblia está registrado no livro Gênesis, capítulo 14, referindo-se à uma atitude voluntariosa de Abraão, ora Abrão, quando depois de uma guerra, ele "deu o dízimo de tudo" ( 10%) a um sacerdote de quem pouco se sabe, chamado Melquisedeque. Um segundo relato, ainda pré Mosaico, é registrado sob a forma de promessa voluntária. Após uma noite em que teve um sonho que julgou revelador, Jacó, neto de Abraão, também se comprometeu voluntariamente a dar dízimos - "oferecerei o dízimo de tudo que me deres" - caso Deus o guardasse e protegesse. Posteriormente, a lei Mosaica prevê um imposto de 10 por cento (dízimas) dos animais e colheitas recolhidos uma vez ao ano, registrado em Levítico 27. Há também um aspecto mais abrangente desse imposto, relatado em Deuteronômios 14, onde se percebem alguns aspectos que não foram explicitados em Levítico, como: razão de culto, interação familiar e auxílio a classe sacerdotal. Também está registrado no contexto, que a cada três anos, esses dízimos deveriam ser instrumentos de auxílio social, notadamente para os levitas (sacerdotes), estrangeiros, órfãos e viúvas. Os próprios sacerdotes, devido a um afroxamento no rigor de cumprir a Lei e desvios na conduta dos homens que cuidavam do serviço sacerdotal, foram avisados e amaldiçoados por Deus, no ministério do profeta Malaquias. E foram advertidos que se não mudassem de comportamento em relação às ofertas e ao dízimo, Deus tornaria as suas bênçãos em maldição Malaquias 2 e mandaria o anjo do Senhor para preparar os Seus caminhos. Desde a Reforma as igrejas protestantes históricas creêm que sob a Graça o dízimo não é válido visto que o Sacrifício de Cristo cumpriu a Torá, houve o fim do templo, e a crença no sacerdócio universal( todos nós somos sacerdotes)anulava a existência de uma casta sacerdotal. As igrejas protestantes históricas (reformadas, luteranas, anabatistas) utilizam-se várias formas para a manutenção dos pédios e dos serviços eclesiais como subscrições, ofertas voluntária e em alguns casos fundos estatais. Mas mesmo assim a prática do dízimo é empregada hoje por várias denominações pentecostais ou neo-pentecostais, principalmente na América Latina.

PAPEL DE SER IGREJA

Como as igrejas ( Grupos de pessoas ) do Novo Testamento recebiam dinheiro?

Normalmente, das contribuições dos cristãos. As igrejas, geralmente, recebiam seu dinheiro de contribuições voluntárias dos membros. "Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for" (1 Coríntios 16:1-2). "Pois nenhum necessitadohavia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, sedistribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade" (Atos 4:34-35). Paulo ensinava que os cristãos deveriam dar voluntariamente e com alegria: "Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria" (2 Coríntios 9:7). Em casos excepcionais, de outras igrejas. Em casos de necessidade, tais como aquela causada por severa fome na Judéia, as igrejas pobres receberam assistência financeira das mais prósperas congregações de outros lugares (Atos 11:27-30). É por isto que Paulo enviou instruções à igreja Coríntia (também mencionadas em Romanos 15:25-32) sobre as doações para ajudar os irmãos pobres de Jerusalém (1 Coríntios 16:1-4; 2 Coríntios 8).

Para ensinar o evangelho. Desde que a missão principal da igreja é espiritual (1 Timóteo 3:15), não é surpresa que as igrejas do Novo Testamento usassem seu dinheiro para espalhar o evangelho. Exemplos deste emprego dos fundos arrecadados incluem o sustento financeiro de homens e mulheres que pregavam o evangelho (1 Coríntios 9:1-15; 2 Coríntios 11:8; Filipenses 4:10-18), e aos que serviam como presbíteros (1 Timóteo 5:17-18). Para acudir os santos necessitados. Quando os cristãos pobres necessitavam de assistência, o dinheiro dado à congregação era usado para acudir àquelas necessidades (Atos 4:32-37; 6:1-4).

Desde que a Bíblia registra tudo o que precisamos saber para servir a Deus de modo aceitável (2 Pedro 1:3; Judas 3; 2 Timóteo 3:16-17), aqueles que hoje procuram servir ao Senhor praticarão somente o que é autorizado no Novo Testamento. Deus não nos deu permissão para tentar melhorar seu plano. O modelo do Novo Testamento pode parecer muito simples, e não sofisticados, às pessoas que estão rodeadas por imensos empreendimentos multinacionais, mas os fiéis precisam contentar-se em fazer a obra de Deus à maneira de Deus. Nossa missão não é juntar grande riqueza ou construir enormes organizações. Nossa missão é servir Jesus e mostrar a outros como fazer o mesmo. Os verdadeiros cristãos não estão interessados em competir com o mundo, mas simplesmente procuram agradar a Deus. As igrejas que seguem o modelo do Novo Testamento receberão seu dinheiro de contribuições voluntárias dos cristãos. Nos casos em que há mais irmãos pobres do que a congregação é capaz de ajudar, elas podem também receber assistência de outras congregações. Este dinheiro será então dedicado à obra que Deus autorizou. A principal missão da igreja (irmãos) sempre será espiritual, alcançando os perdidos e edificando os salvos. Os recursos financeiros da igreja serão usados para completar sua missão de proclamar a pura mensagem do evangelho. Quando há casos de necessidade entre os discípulos, a igreja pode usar suas economias para dar assistência. Quando as igrejas mais prósperas sabem de tais necessidades nas congregações mais pobres, elas podem fazer como as igrejas da Galácia, Macedônia e Acaia fizeram e enviar dinheiro para ajudar seus irmãos mais pobres (veja 1 Coríntios 16:1; 2 Coríntios 8:1-4; 9:1-2).

DIZIMO COMO EXIGÊNCIA

Exigir dízimo. Muitas igrejas pregam que o dízimo é necessário hoje, e sugerem que aqueles que não dão 10% não serão abençoados por Deus. Eles deixam de fazer a distinção que Jesus e os apóstolos fizeram entre o Velho e o Novo Testamento. O dízimo era parte da Lei de Moisés, dada por Deus aos israelitas. Era também o imposto de Israel, com este imposto, o dizimo, também servia para socorrer o agricultor quando sua safra se perdia devido às grandes secas que ocorriam nesta região, e também era usada para manter os exércitos, semelhante que hoje fazemos quando declaramos o imposto de renda e pagamos ICMS.

Passagens tais como Malaquias 3:10, que é usada freqüentemente para exigir o dízimo atualmente, foram escritas para os judeus alguns séculos antes que Cristo morresse para completar essa lei. Não estamos sob essa lei (Gálatas 3:23-25; 5:1-4; Romanos 7:6).Não há uma única passagem no Novo Testamento que autorize as igrejas a exigir dízimo e não existe nada que mande disciplinar as pessoas, tirar dos ministérios por que não tem dizimado,Igrejas proprietárias de negócios. Longe da ênfase espiritual da igreja primitiva, algumas igrejas possuem e operam tudo, desde redes comerciais de televisão até lojas de roupas. O dinheiro contribuído pelos membros é investido em negócios, e os lucros então são usados para sustentar os demais programas da igreja e compras de universidades e diversas escolas. Este pode ser um modo eficaz de aumentar as rendas, mas não é bíblico. A mudança de foco em coisas espirituais para coisas políticas e sociais. É claro que cada seguidor individual de Cristo tem responsabilidade de praticar a justiça e ajudar aqueles que estão em necessidade (Efésios 4:28; Tiago 1:27). Além disto, a igreja tem responsabilidade de ajudar cristãos necessitados (2 Coríntios 8:1-4; etc). As igrejas do Novo Testamento não eram instituições sociais que tentavam sustentar todo o mundo, nem era seu trabalho ganhar poder político ou providenciar divertimento ou escolas. As igrejas do Novo Testamento se dedicavam claramente a uma missão bem mais importante: a salvação e preservação das almas eternas. Continuemos nesta dedicação! Substituindo o plano de Deus pelas organizações e planos humanos. O plano da Bíblia é simples. A igreja local era suficiente para cumprir a obra que Deus lhe deu para fazer. Nada encontramos no Novo Testamento sobre sociedades missionárias, instituições educacionais ou sociais sustentadas pela igreja, etc. Não encontramos igrejas planejando grandes obras e depois pedindo fundos de outras congregações para completar seus planos. Cada igreja local era suficiente para cumprir sua missão dada por Deus.

FAZENDO A OBRA DE DEUS À MANEIRA DE DEUS

Quando buscamos servir o Senhor nas igrejas locais, vamos nos contentar em fazer a obra de Deus como ele instruiu. Cada esforço para “melhorar” o plano de Deus mostra uma falta de fé nele e na absoluta suficiência de sua palavra. Vamos confiar nele e vamos amá-lo bastante para obedecê-lo (João 14:15).

PONTO DE VISTA JURÍDICO.

No Brasil vale lembrar que os templos religiosos e todos os patrimônios de sua pessoa Jurídica são isentas e imunes de impostos. É vedado às pessoas políticas instituírem impostos sobre templos de qualquer culto no que se refere ao patrimônio, renda e serviços, vinculados a suas finalidades essenciais (art. 150, VI, “b” e §4º da CF) .Uma conquista constitucional oferecida ás igrejas, uma expressão da liberdade religiosa. Elas são isentas, tem finalidade filantrópicas, ou seja, sem fins econômicos. Código Civil art. 53.

Imunidade subjetiva: Refere-se à entidade e não a um determinado bem.
Templos de qualquer culto é uma expressão ampla que abrange não só as Igrejas, como também as Lojas maçônicas, Casa do Pastor, Convento, Centro de Formação de Rabinos, Seminários, Casa Paroquial, Imóveis que facilitam o culto, veículos utilizados para atividades pastorais, como o templo móvel e etc. Assim os anexos dos templos também são abrangidos.
Como os Templos presumem-se não imorais, cabe à Pessoa Política provar que o são para que possa fazer incidir os impostos.

Patrimônio, renda e serviços relacionados com as finalidades essenciais do templo: Tendo em vista que a imunidade tem limites, não alcança atividades desvinculadas do culto (art. 150, §4º da CF). Ex: Estacionamento da Igreja pode ser tributado por ISS, IPTU, IR, etc. – Entretanto, o que é comercializado dentro do templo esta a salvo da tributação, pois faz parte do culto.

Uma decisão TJ de Mato Grosso do Sul nega recurso para isenção de IPTU a imóveis de igreja. Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) negou recurso de uma igreja evangélica de Campo Grande que tentava estender a isenção de IPTU - concedida apenas a templos de qualquer culto - para os outros imóveis da entidade religiosa. A Justiça, em primeira instância, já havia negado o mandado de segurança contra a prefeitura.

A decisão foi da 4ª Turma Cível em sessão na terça-feira (1º). No presente recurso, a igreja alegou que possui imunidade tributária nos termos do art. 150, § 4º, da Constituição Federal e que estabelece que é vedada a tributação por meio de IPTU de templos de qualquer culto e que este direito se estenderia aos demais imóveis da entidade religiosa.

Em seu voto, o relator do processo, desembargador Atapoã da Costa Feliz, observou que "a Constituição da República restringe a concessão da imunidade ao patrimônio, à renda e aos serviços relacionados com a finalidade essencial das entidades, ou seja, para que os imóveis da recorrente sejam imunes ao IPTU é preciso que sejam utilizados para consecução religiosa". Conforme salientou o relator, não basta apenas o imóvel ser de propriedade da igreja e sim que esteja servindo para o exercício da fé. O recurso foi improvido por unanimidade pela 4ª Turma Cível, pois não ficou comprovado que os bens são utilizados para esses fins, ou ainda, que o ganho é revertido para a igreja, pois, "não basta provar a sua propriedade, faz-se necessário que tal patrimônio esteja servindo ao cumprimento da finalidade essencial da instituição", acrescentou em seu voto o relator, que citou jurisprudência do próprio TJMS, como também do TJMG, de apelações semelhantes que também pretendiam a mesma isenção com base no referido artigo da Constituição. Como visto acima o direito pátrio além dar a liberdade religiosa, também protege dos eventuais desvios de sua natureza. É sabido que as igrejas têm proteção constitucional no que se refere à liturgia, forma dos cultos, meios e locais para se expressar, etc. No art. 5, inc. VI, da Constituição Federal, lê-se o seguinte: “É inviolável a liberdade de consciência e de crença,sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida na forma da lei a proteção aos locais de culto e suas liturgia. Art. 19: É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: s.” “Inc. I: estabelecer cultos religiosos ou igrejas; subvencioná-los; embaraçar-lhes o funcionamentoou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança,ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.”

Estabelece a Constituição Federal, em seu art. 150 caput, inc. II, inc. VI, alínea b e parágrafo 4, o seguinte: “Art. 150: Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

“Inc. II: instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente, proibida qualquer distinção em razão de ocupação profissional ou função por eles exercida, independentemente da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direitos;

“Inc. VI: instituir impostos sobre:

“alínea b: templos de qualquer culto

“Parágrafo 4: As vedações expressas no inciso VI, alíneas b e c, compreendem somente o patrimônio, a renda e os serviços, relacionados com as finalidades essenciais das entidades nela mencionadas.”

O texto constitucional é bem claro no que diz respeito à isenção tributária e à imunidade. Primeiramente, o texto estabelece que não deve existir um contribuinte em igualdade com outro e receber tratamento diferenciado. Determinada igreja recebe a imunidade tributária, mas faz uso comercial da arrecadação do dinheiro dos membros investindo em bens móveis, imóveis, adquire canal de TV e comercializa sua programação completamente fora do seu propósito religioso. Estamos diante de uma ilegalidade constitucional. É claro o texto também quando diz onde deve recair a imunidade dos tributos. Estabelece a lei que será vedada a cobrança somente no patrimônio, na renda e nos serviços relacionados com as finalidades essenciais da igreja. Portanto, não pode a igreja desvirtuar tal benefício em prol de coisas que não estejam estritamente ligadas ao objetivo e propósito de sua existência: o de levar a fé e o conforto espiritual dentro do seu templo. A igreja não está impedida de usar nenhum meio de comunicação, desde que seu uso seja estritamente espiritual e de acordo com a sua filosofia e seu propósito como igreja. Cito ainda o Dr. Scorsim, que diz em outro parágrafo: “A meu ver, a lei não proíbe que as igrejas acessem a atividade de televisão. É proibido, isto sim, que as organizações religiosas sejam proprietárias de emissoras de televisão. Reprise-se que não é admissível que elas possuam emissoras comerciais, isto é, com finalidades lucrativas. A igreja não é um negócio, nem um instrumento para o enriquecimento privado. Também, não pode servir como plataforma eleitoral para candidatos a cargos públicos. Se uma determinada organização com fins religiosos mantiver uma televisão comercial haverá desvio de finalidade” (texto extraído do Jus Navigandi). Infelizmente, algumas denominações se afastam do critério bíblico inflacionando o dízimo e recaem muitas vezes na prática do crime de estelionato, conforme está disposto em nosso Código Penal. Diz o texto penal em seu art. 171: “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento:

“Pena – reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos e multa.”

Muitas pessoas se deixam levar pela promessa de recursos abundantes mediante a doação de bens móveis, imóveis e dinheiro, querendo dessa forma que Deus triplique suas posses materiais. Não há embasamento bíblico para isso, e se pessoas são instadas a fazer isso mediante apelo psicológico, técnicas de oratória e irresistível emoção, pode-se estar diante do crime de estelionato.

Estas garantias se dão em razão do ser humano, da pessoa natural. Se o próprio estado dá todas estas garantias, por que muitos líderes insistem em afastar membros no subterfúgio de que elas não dizimam? Todo trabalho de um Cristão, as ofertas, visitações, amparo aos doentes, enfermos, ofertas de cestas básicas, construção voluntária, mutirão, discipulado, o tempo para as atividades do culto público são dízimos.

Referências

BÍBLIA. Português. A Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2004. Revista e atualizada no Brasil, 2. ed.

JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. Rio de Janeiro: ed. CPAD, 1990.

GARCIA, Gilberto. O novo código civil e as igrejas. São Paulo: Editora Vida, 2003

HALLEY, Henry H. Manual Bíblico. São Paulo: Vida Nova, 1993.

RIBEIRO, Milton. Liberdade religiosa: uma proposta para debate. São Paulo: Editora Mackenzie, 2002.

TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. 3. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2006.

REALE, Miguel. O código civil e as igrejas. Jornal O Estado de São Paulo. 05/07/03 – p. A2

http://www.direitonosso.com.br/artigo6.htm acessado em 30 de setembro de 2009

http://pt.wikipedia.org/wiki/Dízimo acessado em 30 de setembro de 2009

http://www.boasnovas.tv/programas/antenados/index.php?option=com_content&task=view&id=157&Itemid=26. acessado em 30 de setembro de 2009

Oséias de Lima Vieira.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O Surgimento dos Menonitas



Tradução: João A. de Souza filho, historiador e pesquisador
Nota introdutória:
Os menonitas são, na verdade, a continuidade dos Irmãos, fieis comprometidos com
o evangelho de Cristo que mantiveram sua linhagem evangélica ligada ao tempo dos
apóstolos. Receberam o nome de menonitas devido ao seu líder, Menno Simon que
percorreu a Europa visitando e fortalecendo os “irmãos” perseguidos tanto pela Igreja
romana quanto pelos reformadores Lutero e Zwinglio.
Menno Simon que viveu no período da reforma (1492-1559), homem qualificado
para pregar, e sendo um dos principais líderes que pregavam o batismo, escreveu:
“Ninguém pode me acusar de concordar com o ensinamento de Münster, ao contrário,
durante dezessete anos até hoje eu me opus e lutei contra eles, pessoal e publicamente,
falando e escrevendo. Os que à semelhança da população de Münster recusam a cruz de
Cristo, desprezam a palavra de Deus e se entregam ao pecado imaginando que estejam
certos, nunca os reconheceremos como nossos irmãos e irmãs. Os que nos acusam pensam
que só porque batizamos em águas da mesma maneira que eles serão reconhecidos como
nossos irmãos. E respondo: Se o batismo exterior faz tanta diferença, então eles devem
saber que tipo de grupo eles são, pois é evidente que assassinos e adúlteros e outros tais que
foram batizados como eles o foram não fazem parte da igreja”.
Depois dos acontecimentos em Münster a congregação dos irmãos passou a ser
acusada falsamente de todo tipo de heresias, e a perseguição foi ainda maior. A esperança
de que pudessem obter liberdade de consciência e de culto e de se tornarem uma força na
sociedade germânica desapareceu. Os remanescentes dispersos recebiam visitas e eram
fortalecidos, diante do perigo que corriam por Menno Simon, o que gerou mais tarde os
menonitas.
Em sua autobiografia * escrita depois de 18 anos de atividades ele relata de como
* Geschichte der Alt-Evangelischen Mennoniten Brüderschaft in Russland, P.M. Friesen
aos 24 anos se tornou sacerdote católico na vila de Pingjum (em Friesland, norte da
Holanda). “Quanto as escrituras”, escreveu, “eu nunca a abri com medo de ser mau
conduzido... um ano depois vinha o pensamento do que fazer com o pão e o vinho na
Missa, de que aqueles elementos poderiam não ser a carne e o sangue do Senhor... a
princípio imaginava que tais pensamentos viessem do diabo que queria me desviar da fé.
Sempre confessei e orei a este respeito, mas não conseguia me livrar de tais pensamentos”.
Ele passava seu tempo bebendo e gastando o tempo com outros padres, e sempre que se
mencionava as escrituras ele zombava dela. “finalmente decidi ler o Novo Testamento de
uma só vez com diligência. Nunca fiz progresso na Bíblia, anteriormente, e descobri que
estava sendo enganado. Pela graça de Deus avancei dia a dia no conhecimento das
escrituras, a ponto de me chamarem de pregador evangélico, erroneamente, por certo.
Todos passaram a me procurar e a me elogiar, pois o mundo me amava e eu ao mundo. No
entanto afirmavam que eu pregava a palavra de Deus e de que eu era um bom homem.”
“Depois, apesar de nunca haver ouvido falar dos irmãos, aconteceu que um tal de
Sicke Snyder, um homem temente a Deus, piedoso e herói foi decapitado em Leeuwarden,
porque havia renovado seu batismo. Um outro batismo, pensei, era algo extraordinário que
eu desconhecia. Examinei as Escrituras cuidadosamente e meditei no assunto com
dedicação e não encontrei base para o batismo infantil. Ao fazer esta descoberta comentei o
assunto com meu pastor, e depois de muita conversa, estudamos o tema tão a fundo que ele
teve de admitir que não havia fundamentação bíblica para o batismo de crianças.”
Menno pesquisou em livros e pediu conselho a Lutero, a Bucer e a outros. Cada um
deles apresentou uma razão para o batismo de crianças, mas nenhum deles pôde provar pela
Bíblia.
Por este tempo ele foi transferido para sua vila natal Witmarsum, (em Friesland)
onde continuou a ler a Bíblia, passou a ser admirado e a ter sucesso, mas continuava a viver
de maneira descuidada. “Veja, leitor”, ele continua, “obtive conhecimento do batismo e da
Ceia, pela graça de Deus, pela iluminação do Espírito Santo, depois de ler e meditar na
palavra, e não pela instrumentalidade de seitas errantes, de que sou acusado. Assim se
alguém merece ser agradecido por meu progresso, sempre agradecerei ao Senhor por tudo.
Um ano depois de assumir meu novo posto alguém apareceu por lá pregando o batismo.
Não me lembro quem e nem quando começaram a pregar sobre isto, porque nunca os
encontrei. Então a seita dos Münster surgiu, e através deles muitos corações piedosos foram
enganados. Minha alma se perturbou porque percebi que eram zelosos mas erravam
doutrinariamente. Com meu pequeno dom de pregar e exortar, me opus aos erros o quanto
pude... Todo meu esforço deu em nada porque eu sabia que não estava fazendo o que sabia
ser o correto. A notícia se espalhou de que eu podia calar a boca deste povo, e todos assim
pensavam de mim. Tal situação me deixou angustiado, e eu diante do Senhor orei: ‘Senhor,
ajude-me para que eu não fique carregando os pecados dos outros!’ Minha alma estava
perturbada e pensei que poderia acontecer de eu ganhar o mundo inteiro e, depois de viver
mil anos ouvir de Deus a sentença de ira. Afinal o que teria ganhado?”
“Depois disto estas pobres ovelhas desgarradas, sem verdadeiros pastores, vítimas
de editos cruéis e de tanto morticínio e assassinato se ajuntaram num lugar chamado Oude
Kloster, e alas! Seguindo os ensinamentos errôneos de Münster, contra o Espírito, e contra
a palavra, e sem o exemplo de Cristo, aquele líder desembainhou a espada em sua própria
defesa a qual o Senhor tinha ordenado a Pedro que colocasse na bainha. Quando isto
aconteceu, ainda que estivessem errados, um peso de responsabilidade caiu sobre meus
ombros e não tive mais descanso. Passei a refletir sobre minha vida carnal, meus
ensinamentos hipócritas e a idolatria que se manifestavam em mim diariamente. Eu mesmo
testemunhara como estes zelosos, ainda que não estivessem à frente de toda doutrina,
permitiram que crianças, bens e sangue se perdessem pela convicção de sua fé, e eu era um
dos que ajudou a enumerar as maldades do papismo.
Contudo, continuei a viver na maldade, buscando conforto para minha carne e
evitando encarar a cruz de Cristo. Tais pensamentos se arraigaram em mim a ponto de me
desesperar. Pensei comigo: Desgraçado homem que sou, o que fazer? Se eu continuar a
viver assim depois de conhecer a verdade e não me entregar totalmente ao Senhor; se não
me entregar totalmente ao estudo da palavra de Deus; e não condenar à luz da Palavra de
Deus a hipocrisia dos teólogos, sua forma corrupta de batizar, a ceia, e os falsos cultos, com
os dons que Deus me deu, ainda que poucos, se, com medo de minha carne não expor a
base real da verdade, não poderei, estou certo, guiar essas ovelhas errantes que me acusarão
diante do juízo do Altíssimo que pronunciará o julgamento de minha alma! Meu coração
estremece! Orei a Deus com suspiros de alma e lágrimas pedindo que ele me concedesse os
dons de sua graça, a mim um perdido pecador, pedi a Deus que me desse uma alma pura,
pela obra redentora e pelo derramamento de seu sangue e que me perdoasse por viver uma
vida sem sentido, e que me desse sabedoria, espírito, coragem e heroísmo, para que eu
pregasse sobre o poder de seu nome, de forma genuína, e que minha pregação redundasse
em honras e glória ao seu santíssimo nome.
“Então comecei a pregar, em nome do Senhor e a ensinar publicamente e do púlpito
a palavra de arrependimento, conduzindo o povo pelo caminho estreito, condenando o
pecado e o estilo de vida devasso, bem como toda idolatria, e adoração falsas, testificando
abertamente o sentido verdadeiro do batismo e da ceia conforme os princípios estabelecidos
por Cristo, pela graça que Deus me concedera até aquele momento. Passei a alertar o povo
sobre as perversidades dos irmãos de Münster, seu rei, a poligamia e seu reino defendido
pela espada. E foi assim que, depois de batalhar intensamente nesta direção, depois de nove
meses, o Senhor me encheu do seu Espírito, estendeu-me sua poderosa mão, para que, sem
hesitar e sem compulsão humana eu não me importasse mais em buscar honra, um bom
nome e reputação, coisas que eu tinha entre os homens, deixando para trás o estilo de vida
anticristão que vivera até então.”
“Dispus-me a viver na pobreza e miséria, sob a pesada cruz de nosso Senhor,
temendo a Deus em fraquezas, e saí a buscar as pessoas zelosas pela doutrina – e não
encontrei muitos zelosos. Argumentei com os que se haviam desviado, e ganhei alguns
deles pela graça e poder do Senhor. Os obstinados e duros de coração entreguei ao Senhor.
Veja, meu leitor como a graça de nosso Senhor foi derramada sobre este miserável homem,
pecador, que, depois de aguçar meu coração, deu-me uma nova maneira de pensar,
humilhou-me para andar em sua presença, levou-me a conhecer minha triste realidade,
conduzindo-me do caminho da morte para a estreita senda da vida e me chamou por pura
misericórdia a fazer parte da comunhão dos santos. A ele a glória para sempre! Amem.”
“Um ano depois, enquanto silenciosamente lia e estudava a palavra de Deus, cerca
de oito pessoas me procuraram; eram pessoas de um só coração e alma, que, até onde se
pode julgar viviam na fé, puras, separadas do mundo conforme o testemunho das escrituras,
vivendo sob a cruz; pessoas que estavam horrorizadas com os acontecimentos de Münster,
indignadas com surgimento das seitas malignas que deveriam ser condenadas em todo o
mundo. Essas pessoas me procuraram e me pediram, chorando, que eu tivesse misericórdia
das almas dispersas, pois a fome espiritual era intensa e poucos são os mordomos, e
pediram que eu não usurpasse o que havia recebido do Senhor.”
“Depois de ouvir o que essas oito pessoas tinham a dizer, meu coração se perturbou,
angústia e medo se apoderaram de mim, pois por um lado sabia que tinha poucos dons, que
não aprendia com facilidade, que vivia cheio de temores da carne, que era perverso e estas
coisas me pressionavam bastante. Por outro lado vi a fome espiritual, a falta de pessoas
tementes a Deus, e vi que eram pessoas abandonadas sem pastor. Finalmente me coloquei à
disposição do Senhor e de sua igreja e impus como condição que esses irmãos buscassem
fervorosamente a Deus, comigo, e que, se fosse da vontade de Deus eu seria instrumento de
sua glória. Que a bondade do Pai celestial me desse um coração puro para que eu clamasse
como Paulo: Ai de mim se não pregar o evangelho, do contrário que ele me impedisse de
agir... Veja, leitor, que eu não fui chamado para a obra pelos irmãos de Münster, nem por
outra seita, como caluniam por aí, e, sendo desprezado por essa gente...”.
“Assim eu, um miserável e grande pecador fui iluminado pelo Senhor, me converti
e saí da Babilônia chegando a Jerusalém até se me apresentar esta tarefa nobre e difícil.
Como tais pessoas não desistiam e, impelido pela consciência , vendo a grande necessidade,
entreguei-me totalmente ao Senhor de corpo, alma e espírito, e comecei, naquele tempo
(1537) a ensinar e a batizar conforme o ensino das Escrituras. Com meus poucos dons,
passei. Como Neemias, a edificar seu templo e sua cidade, buscando as pedras espalhadas e
colocando-as no templo de Deus. E conforme a graça do Senhor visitei muitas vilas e
cidades pregando o arrependimento, falando da palavra da graça de Deus, levando o santo
sacramento a poucas ou muitas pessoas que se reuniam em vários lugares. Ele é que faz sua
igreja gloriosa, concedendo-lhe poder; uma igreja que não tem outra arma, que vive em
exílio, perseguida, torturada, queimada como é de hábito a obra da velha serpente; assim,
começamos na Holanda, e, alas! Diariamente labutamos”.
“Veja que este é nosso chamamento e nossa doutrina; estes os frutos do nosso
trabalho, e por isso somos blasfemados e perseguidos como inimigos. Ainda que profetas,
apóstolos e servos fieis a Deus não produzam os mesmos frutos, deixemos que o povo, faça
seu próprio juízo e julgamento. Se o mundo maligno desse ouvidos ao nosso ensinamento, -
que não procede de nós, mas do Senhor, e seguissem a Cristo no temor de Deus, teríamos
outro mundo, diferente deste. Agradeço a Deus que me tem concedido graça para que,
mesmo com derramamento de sangue, meu desejo é que o mundo todo seja atraído dos seus
maus caminhos para Cristo.”
“Espero, portanto, com a ajuda do Senhor, que ninguém me acuse de cobiça ou de
viver na luxúria. Não tenho ouro e prata, nem os ambiciono, ainda que existam pessoas de
coração perverso afirmando que eu como mais bifes no jantar que eles, e que bebo mais
vinho do que eles – que só bebem cerveja... aquele que me vocacionou para a obra sabe que
não aspiro ouro e prata, nem conforto, mas vivo para glorificar a Deus. Nesta base é que
sofro ao lado de minha delicada esposa e de meu filho, enfrentando o medo, pressões,
tristezas, miséria e perseguições, pois nestes últimos dezoito anos tenho vivido com
constante temor, na pobreza, temendo por nossas vidas. Sim, porque enquanto os
pregadores se deitam em leitos confortáveis, nós nos escondemos e nos protegemos nas
sombras das esquinas. Enquanto eles participam alegremente de casamentos, etc. fumando
seus cachimbos, sob o som de flautas e tambores, nós ficamos alerta aos latidos dos
cachorros, porque pode ser que alguém esteja se aproximando para nos prender. Enquanto
os pregadores são saudados como doutores ou mestres, nós nos permitimos ser chamados
de anabatistas, pregadores de ruas, enganadores e heréticos e somos saudados em nome do
diabo. Finalmente, em vez de sermos recompensados, como eles com bons salários, pelos
serviços prestados e recompensados, nossa recompensa é o fogo, a espada e a morte.”
“Veja, meu querido leitor, eu um pobre desgraçado venho trabalhando sem cessar
para o Senhor, vivendo em ansiedade e na pobreza, na tristeza e em perigo de morte,
vagando pelo mundo. Eu e meus companheiros que labutamos neste tempo de dificuldade e
de perigos podemos ser medidos pelos frutos de nossa obra. Meu leitor sincero, por amor a
Jesus, aceite com amor nossa confissão de pecados e nosso testemunho de conversão e tire
suas próprias conclusões. Em todo lugar sou perseguido por pregadores que afirmam que eu
não prego a verdade, como se eu fosse líder de uma seita herética. Os que temem a Deus,
leiam nosso testemunho e julguem!”.
Menno Simon *se dedicou a visitar e a reunir outra vez as igrejas que viviam
espalhadas por causa da perseguição. Foi isso o que fez na Holanda até que em 1543 foi
declarado um fora-da-lei, e um preço foi estipulado por sua captura, e qualquer pessoa que
o acolhesse seria condenado à morte, e qualquer criminoso que o encontrasse e o entregasse
aos executores seria perdoado de seus erros. Obrigado a abandonar os países baixos, depois
de vaguear e de viver em perigos foi acolhido em Fresenburg onde o conde Alefeld o
protegeu; mas não somente foi ele perseguido, mas todos os que com ele andavam. Este
nobre conde sofrendo com os gritos por justiça deste povo sofredor acolheu esses irmãos
bondosamente, e ali não apenas encontraram um local de refúgio, mas também liberdade de
culto, porque havia muitas igrejas se reunindo na vila de Wüstenfelde e nas vilas ao redor.
Em Fresenburg Menno Simon pôde imprimir livremente seus materiais que
circularam por todos os lugares, esclarecendo as pessoas que estavam em posição de
autoridade, abrindo-lhes os olhos, o que contribuiu para amenizar a perseguição e dando
liberdade de culto. Menno morreu em paz em Fresenburg no ano de 1559.
Os imigrantes anabatistas estabeleceram novas empresas em Holstein e prosperaram
trazendo prosperidade ao país até que foram todos dispersos pela Guerra dos Trinta Anos.
Um livreto publicado em 1542 por Pilgram Marbeck jorra bastante luz sobre o
ensinamento dos irmãos. Eles tinham diferenças de opiniões em alguns pontos, mas este
livro mostra o esforço dos irmãos em observar os ensinamentos bíblicos de maneira correta.
Ainda que o autor expresse um ponto de vista extremado da importância de se observar a
vida exterior da igreja, pode-se afirmar que não existe nada de negativo daquilo que se lhes
atribuíam. No título o escritor afirma que o livro tem como objetivo levar conforto a todos
os fiéis, piedosos e comprometidos de coração, mostrando-lhes o que as Escrituras ensinam
sobre o batismo e a ceia do Senhor.
O autor apresenta os textos bíblicos para provar seu ponto de vista aos leitores, e
conclui: “Assim, podendo expressar nossos pensamentos, nosso entendimento, opinião e fé
com respeito ao batismo e a ceia encerraremos com um resumo geral da importância desses
dois temas, e explicando a razão porque foram tão citados. Nosso Senhor Jesus deseja ser
reconhecido, não apenas em sua congregação, mas através dela, para que seu santo nome
seja reconhecido e louvado por todo o mundo. Por isso, Cristo, juntamente com a pregação
do evangelho, instituiu essas duas coisas, o batismo público e a ceia que são elementos que
mantêm pura e santa a parte visível da igreja. Como o tema tem de ser visto à luz da
verdade, podemos afirmar que três coisas são necessárias para a vida de uma assembléia
cristã: a pregação do evangelho, o batismo e a ceia do Senhor. Quando não ocorrem estas
três coisas ou alguma delas não é praticada não é possível manter o testemunho visível da
igreja.”
* Fundamente der Christlichen Lehre u.s.w. Joh Deknatel
1. Pregação do evangelho. “Para que a parte visível da assembléia de Deus seja vista
quando está reunida, para que a assembléia seja iniciada e mantida tem de haver a pregação
do evangelho. A pregação do evangelho é a rede de pesca viva que deve ser lançada sobre
as pessoas que navegam neste mar que é o mundo, e as pessoas são como bestas e por
natureza filhos da ira. Os que são apanhados nesta rede ou pela linha com anzol, isto é, pela
palavra do evangelho, ao serem firmados nele são tirados das trevas para a luz e podem ser
transformados de filhos da ira para filhos de Deus. É a isto que se refere Pedro quando fala
que somos pedras vivas edificadas. Porque a igreja é a reunião de todos os que
verdadeiramente crêem e são filhos de Deus, que louvam e dão testemunho público do seu
nome. Na igreja só há espaço para os fieis, pois entendemos que as pessoas, por natureza
não entendem as coisas divinas e somente pela palavra é que adquirem conhecimento de
Cristo e das escrituras sagradas. Assim, pela pregação do evangelho temos o começo pela
qual todos os homens são reunidos ao redor do conhecimento de Deus e de sua santa igreja.
A fé vem pela pregação da palavra de Deus e os que o aceitam passam a ser contados como
filhos, para só então se tornarem membros da santa igreja...”.
2. O batismo. “A segunda coisa que contribui para a edificação da igreja é o santo
batismo, que é a entrada e a porta para que alguém faça parte da santa igreja, pois de acordo
com a palavra de Deus uma pessoa só faz parte da igreja através do batismo. Portanto para
ser recebido na santa igreja, isto é, na assembléia dos que crêem em Cristo, a pessoa tem de
morrer para o diabo, e deve renunciar o e morrer para o mundo; deve renunciar as coisas
mundanas, crucificar a carne e o orgulho. E deve confessar com seus lábios sua decisão.
Depois de proceder assim ela deve ser batizada no nome de Deus, ou em Jesus Cristo, pois
seu batismo é firmado na confissão do arrependimento e da fé, crendo que está purificado
de seus pecados, para depois andar em obediência a Deus e a Cristo. Eis aí a utilidade do
batismo, porque através dele os crentes podem expressar de maneira visível que estão
aceitando a fé e se unindo à santa igreja...”.
3. A ceia do Senhor. “Quanto a ceia ela pode ser apresentada de duas maneiras.
Primeiramente, toda a assembléia se reúne ao redor da mesa do Senhor, como testemunho
da unidade da fé e do amor de Cristo. Em segundo, para que toda iniqüidade e tudo que não
é santo e puro para Cristo, tudo o que o ofende seja eliminado e cortado (da igreja).”
O escritor deste livreto, Pilgram Marbeck era um engenheiro. Nascido no Tirol ele
realizou importantes obras na região baixa do vale de Inn, e foi condecorado diversas vezes
pelo governo por serviços prestados à comunidade. Não se sabe ao certo quando se uniu aos
irmãos, mas em 1528 sua confissão de fé o fez perder todos os títulos de cidadão emérito.
Foi neste tempo que escreveu: “Criado por pais piedosos no papismo, abandonei ao
(papismo) e passei a pregar o evangelho de Guttenbergue (o evangelho de Lutero). Depois
de descobrir que os luteranos viviam na libertinagem, comecei a duvidar e não mais
encontrei descanso entre os luteranos. Foi então que aceitei ser batizado como sinal de
minha fé e obediência, buscando somente a palavra e os mandamentos de Deus.”
Ele teve que deixar todos os seus bens para fugir com sua esposa e seu filho – seus
bens foram confiscados, mas sua capacidade profissional o ajudava a se manter onde quer
que vivesse. Em Estrasburgo ele enriqueceu a cidade construindo um aqueduto por onde
desciam os troncos de madeira trazidos da Floresta Negra. Seu caráter limpo e seu zelo
espiritual angariaram muitos admiradores, pois havia muitos irmãos e muitos seguidores
dos reformistas. Bucer e Capito foram atraídos pela sinceridade de Pilgram Marbeck e seus
dons espirituais. Por pregar abertamente e sem temor sobre a necessidade da pessoa ser
batizada, atraiu também inimigos. O próprio Bucer se virou contra ele e Marbeck foi preso.
Capito não se envergonhava de visitá-lo na prisão, mas a discussão ia parar no conselho da
cidade de que não era necessário crer no batismo infantil para ser um cristão, e deram a
Pilgram Marbeck quatro semanas para terminar seu projeto e abandonar a cidade em 1532.
O Sectarismo limita a razão e a fé. O coração responde e aceita algumas verdades
ensinadas nas Escrituras acompanhadas da revelação divina, e à medida que as recebemos,
que as expomos, e as defendemos adquirem uma força muito grande sobre nós. Um outro
lado da verdade, outro ponto de vista da revelação – tudo com base nas Escrituras, parece
enfraquecer e até mesmo contraditar a verdade anterior que era aceita, conseqüentemente o
zelo doutrinário leva a balança a pender para um só lado, a ponto de se negar a verdade
anterior. E é assim que, um pouco de revelação aqui e uma parte da Palavra ali contribuem
para formar uma nova seita, ao que parece boa e útil pois leva à prática a verdade divina,
mas limitada e desequilibrada, porque não apresenta toda a verdade, nem tampouco aceita
toda a Escritura. Os membros que aceitam esta nova “revelação” além de serem impedidos
de ver a Escritura por completo, são cortados da comunhão dos santos, e ficam mais
limitados que os demais, pois a viseira doutrinária não lhes permite enxergar a verdade
completa, mas apenas uma fração.
É de se lastimar, com razão, as divisões existentes entre o povo de Deus porque o
fundamental é obscurecido por essas divisões visíveis a olho nu. No entanto, na igreja
existe liberdade de se enfatizar o que se aprende e o que se experimenta, o que é de grande
valia, pois até mesmo os conflitos sectários são resultados do zelo doutrinário de algum
aspecto da verdade, o que leva a uma busca intensa pelas Escrituras e a descoberta de novos
tesouros. Agora, quando essas coisas põem em perigo o amor, o prejuízo é enorme. Por
outro lado, pior que a luta sectária é quando se quer manter a uniformidade ao custo da
liberdade, ou quando os irmãos se reúnem movidos pela indiferença.
Um edito do Duque Johann de Cleve, Julich, Berg e Marcos, dizia assim: *
“Sabendo-se de antemão o que fazer com os anabatistas... juntamente com o arcebispo de
Colônia queremos anunciar, através deste edito que ninguém deve ser desculpado alegando
falta de conhecimento. A partir de hoje toda pessoa que se batizar de novo, e todo o que
ensinar que o batismo infantil não tem valor algum seja punido com morte... e também todo
o que afirmar ou ensinar que no sacramento o sangue e o corpo de nosso Senhor Jesus
Cristo não estão presentes, mas apenas figurativamente ou em memória... não seja mais
aceito na cidade, mas banido de nosso principado, e se depois de três dias ainda ficarem na
cidade sejam punidos de morte... recebendo o mesmo tratamento reservado aos
anabatistas”. Foram encontrados registros que relatam as mortes por fogueira, afogamento e
decapitação que se seguiram àqueles dias.
Em Colônia a congregação continuou a se reunir secretamente numa casa junto ao
muro que tinha duas entradas, para que os irmãos pudessem escapar caso fossem
descobertos e presos. Em 1556 Thomas Drucker Von Imbroek um mestre habilidoso e
piedoso de apenas 25 anos de idade foi levado como prisioneiro de torre em torre,
torturado, e, por fim foi decapitado. Algumas de suas cartas e vários de seus hinos foram
escritos na prisão, e sua confissão de fé foi impressa e circulou entre os irmãos, o que
ajudou a divulgar a verdade. Sua esposa lhe escreveu uma carta em forma de verso quando
ele estava na prisão: “Querido amigo, mantenha-se agarrado à pura verdade; não fique
aterrorizado porque você sabe a importância dos votos que fez; aceite a cruz, pois o próprio
Cristo e os santos apóstolos passaram por tudo isto”. A igreja de Colônia não se intimidou
* Geschichte des Christlichen Lebens in der rheinisch-westphälischen evangelischen Kirche, Max Goebel
com a morte de Drucker. Em 1561 mais três irmãos morreram afogados; no ano seguinte
dois deles foram presos sendo que um morreu afogado e o outro na hora da morte foi
banido, censurado e desterrado.
As reuniões continuaram até 1566 quando um dos membros traiu o grupo. A casa
foi sitiada e todos foram feitos prisioneiros. Anotaram seus nomes e eles foram espalhados
por diversas prisões. Matthias Zerfass, espontaneamente se declarou líder e mestre do
grupo, não vacilou diante da tortura e depois foi decapitado. Da prisão ele escreveu: “Eles
me torturaram para que eu denunciasse quem eram os guias e mestres e revelasse seus
nomes e endereços... eu deveria concordar que as autoridades eram cristãs e afirmar que
concordava com o batismo de crianças. Apertei os lábios, me entreguei a Deus, sofri
pacientemente e me lembrei das palavras do Senhor quando ele disse: ‘Maior amor não
existe do que alguém dar a sua vida a favor de seus amigos. Vocês são meus amigos se
fizerem o que lhes mando fazer’. Ao que parece ainda vou sofrer muito, mas estou nas
mãos do Senhor, e minha única oração é que a vontade dele seja feita”.
Não obstante em 1534 o bispo de Münster escreveu ao Papa testemunhando a favor
do estilo de vida dos anabatistas.
Hermann V arcebispo de Colônia (1472-1552) percebeu a necessidade de reforma
na Igreja Romana e fez de tudo para mudar a igreja. Ele era Conde de Weied e Runkel e
eleitor do Império. Aos quinze anos de idade foi eleito Deão de Colônia e mais tarde
arcebispo. Era um sujeito bom e liberal, amado por seus seguidores mas não se interessava
pela teologia e pelo latim. Opunha-se a Reforma e queimava as obras de Lutero, e sua corte
espiritual condenou dois habitantes de Colônia ao martírio. No entanto ele notava que o
povo era ignorante e supersticioso e que a igreja estava nas mãos de um clero ignorante e
ausente do povo. Ele notava que a ceia do Senhor não era levada a sério e que os membros
do clero não seguiam as regras canônicas. Em consultas feitas com os melhores oficiais da
igreja católica ele tentava realizar uma reforma seguindo as idéias de Erasmo. Diante do
fracasso desta sua tentativa ele tentou realizar uma reforma evangélica na igreja com a
ajuda de Bucer e de Melanchthon, mas a oposição do clero e da universidade de Colônia, e
de Canisius um jesuíta ferrenho frustrou seus esforços. Sem apoio para suas reformas ele
renunciou o cargo de arcebispo e se retirou para seu Estado.
Um dos que permaneceu distante da igreja romana e também de Lutero e dos
reformadores, mas que não se uniu aos chamados anabatistas foi o nobre da Silésia, Kaspar
Von Schwenckfeld (1489-1561) homem influente em seu país e no exterior. * Comerciante
que negociava com as pequenas cortes alemãs, até os trinta anos de idade não se interessava
em ler as Escrituras, até que foi tocado pelas mensagens de Martinho Lutero, “A
maravilhosa trombeta de Deus”, e foi visitado por Deus tornando-se a “alma” da reforma na
Silésia. Mas, não demorou muito tempo para que Schwenckfeld começasse a fazer severas
críticas a Lutero, especialmente com respeito a doutrina da ceia do Senhor. Por causa disto
Lutero o atacou violentamente usando de sua autoridade para tratá-lo como intrometido e
herético. Schwenckfeld, no entanto, sempre reconhecia publicamente a influência de Lutero
em sua vida espiritual, e depois de sofrer durante anos as perseguições do próprio Lutero e
dos luteranos ele deu sua opinião aos que conheciam seu dilema: “Oremos a Deus por eles,
com fidelidade, porque chegará o dia em que eles, e todos nós, reconheceremos nossa
ignorância na presença do Mestre, Jesus Cristo”.
Sua maior alegria era o estudo das Escrituras. Ele entendeu que se lesse quatro
* Schwencfeld, Luther um der Gedanke einer Apostolischen Reformation, Karl Ecke.
capítulos por dia poderia ler a Bíblia inteira durante o ano, e a princípio fez disto uma regra
para si mesmo, mas decidiu deixar que o Espírito Santo o dirigisse em suas leituras e não se
obrigou a uma certa quantidade, mas ficou livre para ler o que o Espírito lhe conduzisse ler.
Ele afirmou: “Cristo é a completude de toda a Bíblia e o objetivo principal das Escrituras é
nos levar a conhecer o Senhor Jesus Cristo”. A fé, a inspiração e a veracidade da Bíblia não
se tornaram um dogma para ele, mas a descoberta de possibilidades ilimitadas; A Bíblia
não era apenas uma superstição antiga, mas um livro que lhe dava progresso espiritual. Ele
descreveu sua leitura da Bíblia como “uma alegria de novas descobertas, na qual meditava
diariamente e sobre a qual pensava a todo momento”. “Porque nela existe um tesouro
oculto que nos espera, como um baú de puras pérolas, ouro e pedras preciosas”.
Uma regra “segura” para o expositor, diz ele, “onde existem passagens discutíveis, é
que todo o contexto deve ser estudado, pois a Escritura é luz para si mesma, e passagens
isoladas quando trazidas para o todo, devem ser comparadas, ainda que apareçam na Bíblia
uma única vez, para se saber por que estão na Bíblia”. Ele se aprofundou no estudo do
hebraico e do grego, e escrevia baseado na tradução da Bíblia feita por Lutero, mas também
da “velha Bíblia” que era usada pelos anabatistas (muito antes de Lutero) e pela Vulgata.
Ele descobriu a chave para entender o Antigo Testamento estudando o Novo. Ele decidiu
que se deixaria guiar pelas doutrinas e pela prática das Escrituras, “e se não entendermos
tudo não devemos pôr a culpa na Bíblia, mas em nossa ignorância”.
Oito anos depois de haver sido visitado por Deus pela primeira vez, ele teve uma
nova experiência que afetou sua vida para sempre. Até então estava comprometido com a
pregação da palavra e com o luteranismo, e agora, o que acreditava intelectualmente passou
a ser acreditado de coração. Passou a ter certeza de seu chamamento, a ter certeza de sua
salvação, e se entregou a Cristo como sacrifício vivo e agradável. Apoderou-se dele um
profundo sentimento de pecado, e também da suficiência da obra redentora de Cristo por
sua morte e ressurreição. Esta convicção tomou conta de sua alma, transformou sua mente e
o fez caminhar pelo caminho da obediência, pela liberdade encontrada na vontade de Deus.
Descobriu que as Escrituras não apenas nos guiam à santificação e justificação
pessoal, mas que contêm todas as instruções que uma pessoa precisa saber com respeito a
igreja. Ele afirmou: “Se quisermos reformar a igreja, temos que depender do Espírito Santo
e especialmente do livro dos Atos dos apóstolos, porque ali vemos como tudo aconteceu no
início, o certo e errado, e o que é ou não aceitável diante de Deus e do Senhor Jesus.” Ele
notou que a igreja dos tempos apostólicos e seus sucessores imediatos se constituía de
irmãos que se reuniam gloriosamente, não apenas num local, mas em muitos. E se pergunta
onde encontraria aquele tipo de assembléias nos dias de hoje. “As Escrituras só incluem (no
corpo) aqueles que reconhecem ser Cristo o cabeça e os que voluntariamente se submetem
ao Espírito Santo como guia, que os adorna com dons e conhecimentos espirituais.”
O Senhor Jesus, através dos dons espirituais dirige as pessoas individualmente e
também toda a assembléia dos santos. Nas reuniões da assembléia os dons espirituais são
manifestos para proveito de todos; porque o mesmo Espírito distribui os dons que são
manifestados e distribuídos a cada membro do corpo como ele quer. O Espírito tem essa
grande liberdade! Quando alguém, guiado pelo Espírito se põe a falar, a pessoa que estava
falando se cala. As igrejas não são perfeitas, e é possível que alguns hipócritas consigam
esconder sua desfaçatez, mas quando descobertos devem ser excluídos. Schwenckfeld não
podia, portanto, reconhecer a religião reformada estatal como Igreja (Luterana), porque a
grande maioria dos irmãos não tinham o Espírito de Cristo, e participavam dos sacramentos
sem a graça de Deus. Dispôs-se a receber ajuda de organizações missionárias, desde que
não tomassem o lugar das igrejas de Cristo.
“Está claro e evidente”, disse depois, “que todos os crentes são chamados para
glorificar o Senhor Jesus Cristo, anunciando suas virtudes e confessando seu nome diante
dos homens.”. Quaisquer restrições ao sacerdócio universal de todos os santos limita a
ação do Espírito Santo. “Se nos dias de Paulo agissem como hoje, e somente os indicados
pelos magistrados pregassem o evangelho, até onde o evangelho teria chegado? Até que
ponto o evangelho teria nos alcançado?”. Alguns são escolhidos dentre os crentes para uma
obra especial, e se encaixam no ofício a que são designados, mas não pelo estudo, eleição
ou ordenação, mas pela confiança , revelação e manifestação do Espírito, “para que Cristo
evidencie através deles sua graça, seu poder, sua vida e bênçãos”. Já que “são chamados e
enviados unicamente por Deus, na graça operante de Cristo, agem no poder e na certeza do
Espírito Santo. São pessoas nascidas de novo, de corações renovados que edificam o reino
de Cristo.”
Schwenckfeld afirmava que o batismo não salva e que para ser salva uma pessoa
não precisava ser batizada, mas ao mesmo tempo ensinava que depois de se fazer confissão
pública a pessoa deveria ser batizada e que crianças de berço não têm fé, portanto não
devem ser batizadas.
Os ensinamentos de Schwenckfeld chamaram a atenção do rei Ferdinando que o
acusou de desprezar a ceia do Senhor e foi obrigado (1529) a deixar sua terra natal onde era
muito estimado. Os próximos trinta anos de sua vida Schwenckfeld viveu errante,
perseguido pela igreja luterana, que o declarou herético, o que não impediu o surgimento de
novos grupos que concordavam com seu ensinamento, especialmente no sul da Alemanha,
onde alguns dos príncipes o protegiam.
Nota do tradutor: Como o leitor pôde perceber, os Irmãos que diziam manter a fé
apostólica desde a época do apóstolo Paulo, foram revigorados através de Pedro Waldo
(1160), e, além de permanecerem fieis nos vales e montes da Itália e da Suíça, foram
revigorados com a pregação de Wycliff, na Universidade de Oxford onde seus seguidores
foram chamados de lolardos; depois chamados de hussitas, devido a John Hus, anabatistas,
apelido que ganharam dos reformistas, e menonitas, devido a Menno Simon. Como o leitor
pôde perceber, a igreja evangélica passou ao largo da Reforma de Lutero, o que implica
dizer que os evangélicos não são reformistas, mas guardiões da herança apostólica.